O mercado travou. o que deveria ser a temporada de maior aquecimento para upgrades e montagem de novos computadores virou um período de cautela extrema e carteiras fechadas. relatórios vindos diretamente das linhas de montagem em taiwan e na china indicam que as vendas de placas-mãe recuaram entre 40% e 50% na comparação anual, um número que não se via nem nos piores momentos da crise das gpus de 2021.

A retração não afeta apenas os modelos de entrada, que geralmente sofrem primeiro com a inflação. desta vez, plataformas intermediárias (b860, b750) e avançadas (z890, x870) estão encalhadas nos estoques dos varejistas. o motivo não é a falta de interesse nos novos processadores arrow lake ou zen 5, mas sim o preço proibitivo da memória ddr5, que deixou de ser um componente acessível para se tornar o maior gargalo financeiro de qualquer setup moderno.

O preço de um carro popular? não, de um kit de ram.

A situação escalou para níveis que beiram o surrealismo econômico. na china, a fabricante Asgard, conhecida por oferecer custo-benefício no passado, lançou recentemente kits limitados de memória ddr5 de alta capacidade (256 gb com frequências extremas) custando o equivalente a uma placa de vídeo rtx 5090. o que antes era um componente que representava 10% ou 15% do orçamento da máquina, agora compete em valor com a própria gpu.

Kits convencionais, de 32gb ou 64gb, essenciais para rodar os jogos atuais que exigem cada vez mais alocação de vram e ram do sistema, já custam de duas a quatro vezes mais do que no ano passado. isso criou um fenômeno de "represamento": o consumidor tem o dinheiro para a placa-mãe e para o processador, mas desiste da compra ao ver o preço final do carrinho ser duplicado apenas pelas memórias.

Nos estados unidos, a situação gerou medidas de varejo nunca antes vistas. a rede Micro Center, um paraíso para entusiastas, adotou em algumas filiais o "preço dinâmico" para pentes de memória. em diversas lojas, as etiquetas de preço impressas foram removidas das prateleiras de memória ram. o valor agora é informado apenas no balcão ou via qr code, variando diariamente (ou até horariamente) como se fosse uma commodity instável na bolsa de valores. essa volatilidade é imposta pelos distribuidores, que não conseguem garantir o preço de reposição do estoque.

A canibalização industrial: ia contra o consumidor doméstico

A resposta lógica do capitalismo para a alta demanda seria aumentar a oferta, certo? errado. as gigantes Samsung, SK Hynix e Micron, que formam o triunvirato que controla a maior parte do suprimento global de dram, confirmaram em reuniões com investidores que não aumentarão a produção de memórias de consumo (ddr4 e ddr5 padrão).

"A prioridade mudou drasticamente: elas preferem a lucratividade astronômica e a segurança a curto prazo diante da bolha da ia. a indústria parou de fabricar para pessoas e começou a fabricar para máquinas."

O problema é físico e logístico: a capacidade fabril de "wafers" de silício é finita. neste momento, as linhas de produção estão sendo massivamente convertidas para fabricar memórias hbm (high bandwidth memory), como a hbm3e e a futura hbm4. essas memórias são essenciais, obrigatórias e insubstituíveis para os aceleradores de inteligência artificial da nvidia e da amd que equipam data centers. um wafer de hbm rende até dez vezes mais lucro do que um wafer de ddr5 comum. com isso, a produção para pcs domésticos foi canibalizada sem dó nem piedade.

Efeito dominó: o colapso do ecossistema de 2026

O hardware de pc é um ecossistema simbiótico. sem comprar ram, o consumidor não compra a placa-mãe. sem a placa-mãe, não há venda de processador. sem o "core" do sistema, a venda de fontes de alimentação, gabinetes, ssds nvme e coolers também despenca. esse efeito dominó deve impactar os resultados financeiros da intel e amd no primeiro e segundo trimestres de 2026 de forma severa.

Analistas do setor, citados pelo portal coreano Hankyung e corroborados por fontes da cadeia de suprimentos de taiwan (digities), apontam que a escassez de suprimentos deve durar, no mínimo, até o primeiro semestre de 2027. a esperança de uma normalização rápida foi enterrada quando os planos de expansão das fábricas foram adiados para priorizar contratos governamentais e corporativos de ia.

O mercado de usados e a obsolescência forçada

Com o mercado de novos inviabilizado, observamos uma distorção secundária: a inflação do mercado de usados. plataformas antigas, como am4 (ddr4), que deveriam estar perdendo valor, voltaram a valorizar. entusiastas estão "segurando" seus hardwares antigos, cancelando planos de venda, o que seca o mercado de segunda mão e eleva os preços de componentes com 4 ou 5 anos de uso.

Para o desenvolvedor de jogos e software, isso cria um pesadelo de otimização. esperava-se que 2026 fosse o ano em que 32gb se tornaria o padrão mínimo exigido. com a crise, a base instalada de hardware vai estagnar, forçando estúdios a continuarem suportando tecnologias legadas para não perderem público, atrasando a evolução gráfica e técnica da indústria como um todo.

Até 2027, a recomendação para o consumidor é clara e dolorosa: cuide bem do hardware que você já tem. faça a manutenção preventiva, troque a pasta térmica, limpe os filtros de poeira. o seu pc atual precisará sobreviver a um longo inverno onde o silício vale mais que ouro.