Para entender o fenômeno das LAN Houses, é preciso primeiro compreender a hostilidade tecnológica do Brasil no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Hoje, baixamos 100GB em minutos. Naquela época, baixar uma música em MP3 (3MB) era um projeto de tarde inteira.
A internet residencial era um luxo para poucos e um tormento para muitos. A conexão discada (Dial-Up) funcionava através da linha telefônica. Isso significava que:
- A velocidade máxima teórica era 56kbps (na prática, raramente passava de 40kbps).
- Se alguém tirasse o telefone do gancho na sua casa, a conexão caía.
- A tarifa era cobrada por minutos, como uma ligação normal. A conta de telefone podia facilmente ultrapassar o valor de um salário mínimo se você não tomasse cuidado.
Foi nesse cenário que surgiu o "Mito da Meia-Noite" e do "Fim de Semana". A partir da meia-noite de sexta-feira até as 6h da manhã de segunda, pagava-se apenas um pulso telefônico. Mas jogar online com um ping de 400ms via modem discado era inviável para jogos de tiro. A solução? Rede Local (LAN - Local Area Network).
Enquanto em casa tínhamos Celerons lentos, as LAN Houses ostentavam as máquinas "da NASA":
- Processador: Pentium 4 ou AMD Athlon XP
- RAM: 256MB ou 512MB (um absurdo para a época)
- Vídeo: GeForce FX 5200 (a guerreira) ou MX 4000
- Monitor: CRT de 17 polegadas "Tela Plana" (que pesava 20kg)
- Periféricos: Fones Clone gigantes que descascavam na orelha e mouses satélite.
Não importava se era no centro de São Paulo ou no interior do Nordeste, a estética era universal. As janelas eram cobertas com papel pardo ou pintadas de preto para evitar reflexo nos monitores. A iluminação vinha apenas do brilho azulado das telas CRT.
Havia uma hierarquia social clara baseada na geografia do local. As máquinas perto do ar-condicionado (quando havia) ou do balcão eram para os "regulares". O fundo da sala era a terra sem lei, onde a gritaria corria solta.
E havia o "Operator" — o dono ou funcionário da LAN. Ele era o guardião do tempo. "Aí, máquina 4, faltam 5 minutos!", ele gritava. Ele também vendia a "mana" da vida real: latas de Coca-Cola, salgadinhos Fandangos e chocolates. Muitas vezes, ele também era o responsável por formatar os PCs toda semana devido à quantidade de vírus que os usuários baixavam ao tentar instalar cheats ou acessar o Orkut.
Se as LAN Houses eram os templos, Counter-Strike 1.6 (e suas versões anteriores, 1.3 e 1.5) era a missa. É impossível dissociar a ascensão desses estabelecimentos do mod de Half-Life que dominou o mundo.
O CS criou uma linguagem própria que usamos até hoje:
- "Varado": Morrer através da parede ou porta.
- "Xiter": O jogador que usava trapaças (Wallhack, Aimbot). Era julgado e banido fisicamente da LAN (às vezes, na base do tapa).
- "Rushar B": A estratégia mais primitiva e eficiente de todas. Correr sem parar.
- "Camper": Aquele que ficava escondido no canto escuro esperando alguém passar.
Ninguém jogava a rotação completa. A democracia da LAN House elegia apenas três reis:
1. de_dust2: O mapa perfeito. Equilíbrio simétrico, pontos de choque claros. Era o padrão.2. cs_rio: Um mapa não oficial, modificado por brasileiros, com a música do Bezerra da Silva tocando ao fundo, tiroteio na favela e a bola de futebol no respawn. Um patrimônio cultural nacional.
3. fy_pool_day: O mapa do caos. Uma piscina, azulejos brancos, armas no chão e rodadas que duravam 15 segundos.
Embora CS fosse o rei, a LAN House era um ecossistema diverso. Havia tribos distintas que ocupavam setores diferentes do estabelecimento.
Warcraft III & Dota
Estratégia / MOBAAntes de League of Legends existir, o mapa personalizado "Defense of the Ancients" (DotA) no Warcraft III criava rivalidades mortais. Era complexo, difícil e punitivo. Quem sabia jogar de Pudge era venerado.
Need for Speed: Underground 2
Corrida / TuningAo som de "Riders on the Storm" (Snoop Dogg remix), personalizávamos carros com neons bregas e sistemas de som gigantescos. Era o jogo perfeito para relaxar entre uma partida e outra de CS.
Tibia
MMORPGGráficos simples, jogabilidade brutal. Morrer no Tibia significava perder dias de progresso. As LAN Houses eram QGs de guildas. Ver alguém level 100+ era como ver uma celebridade. O perigo de "Hunted" na vida real era genuíno.
GTA: Vice City & San Andreas
Mundo AbertoMuitos iam à LAN apenas para imprimir folhas A4 cheias de códigos de trapaça (HESOYAM, AEZAKMI) e causar o caos na cidade, sem fazer uma única missão da história.
Gunbound
Estratégia por TurnosFofinho, mas matematicamente complexo. Calcular vento, ângulo e força do tiro do seu Mobile. O "Adula" e o "Mamute" eram clássicos. Quem tinha o avatar de Dragão Dourado ostentava respeito (e dinheiro gasto).
Mu Online
MMORPG / Hack'n SlashO som do "Pling" de uma Joia (Bless/Soul) caindo no chão gerava taquicardia. Asas brilhantes, sets +11 brilhando igual árvore de natal e o personagem girando sozinho (AFK) com um palito de dente travando o botão do mouse.
O auge da experiência era o Corujão. O estabelecimento fechava as portas às 22h ou 23h, e só abria às 6h da manhã do dia seguinte. Quem estava dentro, ficava. Quem estava fora, não entrava.
Era um teste de resistência física e mental. Pagava-se um valor fixo (geralmente R$ 10,00 ou R$ 15,00) para jogar a noite inteira. Por volta das 3h da manhã, o cenário era de guerra: guerreiros dormindo sobre os teclados, outros jogando CS no piloto automático com olhos vermelhos, e o cheiro de pizza fria impregnando o ar.
O Corujão criava laços de amizade indestrutíveis. Você via a pessoa no seu pior estado (sono, fome, raiva) e no seu melhor (o Clutch 1v5 às 4h da manhã). Era ali que os "Clans" nasciam e morriam.
Por volta de 2010, o cenário começou a mudar drasticamente. Três cavaleiros do apocalipse decretaram o fim da Era de Ouro das LAN Houses:
- Banda Larga Acessível: A internet de alta velocidade chegou às residências. Não precisávamos mais sair de casa para ter ping baixo.
- Hardware Barato e Consoles: O barateamento dos PCs e a popularidade do PS2/PS3 e Xbox 360 tiraram o público casual das ruas.
- Lan House virou Centro de Serviços: Os locais que sobreviveram pararam de focar em jogos e viraram locais para imprimir boletos, tirar segunda via de CPF e acessar o Facebook rápido. O espírito gamer se dissipou.
Hoje, temos "Arenas Gamer" de luxo, com PCs de R$ 20 mil e cadeiras ergonômicas, mas falta algo. Falta a alma suja e caótica da LAN House de bairro. Falta o grito espontâneo de gol no Winning Eleven que fazia a sala toda parar.
As LAN Houses foram o berço do e-Sports brasileiro. FalleN, fer, coldzera... todos começaram nesses cubículos escuros. Elas ensinaram uma geração inteira a resolver problemas de rede, a entender hardware e, principalmente, a socializar.
"Não éramos apenas jogadores em uma sala. Éramos uma comunidade unida pelo lag, pelo CRT e pela paixão."
Se você viveu essa época, você carrega as cicatrizes (e as memórias) de batalhas épicas travadas não online, mas lado a lado, ombro a ombro. A tecnologia evoluiu, o conforto aumentou, mas a magia de ouvir alguém gritar "X1 no meio, lixo!" do outro lado da sala... isso a fibra óptica nunca vai conseguir transmitir.