A gênese: Calculadoras e LEDs vermelhos

A "pré-história" dos portáteis é curiosa. Reza a lenda que Gunpei Yokoi, engenheiro da Nintendo, teve a ideia do console portátil ao observar um empresário entediado brincando com uma calculadora LCD no trem-bala.

Mas antes disso, em 1976, a Mattel lançou o Auto Race. Era rudimentar: apenas pontos de LED vermelhos que representavam carros e consumiam bateria vorazmente. A verdadeira revolução conceitual veio em 1979 com o Microvision da Milton Bradley, o primeiro a usar cartuchos intercambiáveis. Infelizmente, a tecnologia da época não acompanhava a ambição: as telas de cristal líquido vazavam ("screen rot") e os processadores queimavam com a estática dos dedos.

Foi em 1980 que a Nintendo refinou o conceito com a linha Game & Watch. Além de popularizar as telas de LCD baratas, esses dispositivos introduziram uma invenção patenteada que mudaria a indústria para sempre: o D-Pad em formato de cruz. Antes dele, usavam-se joysticks soltos ou botões lineares; o D-Pad permitiu controle preciso sem partes móveis complexas.

O precursor do que mercado portatíl.
O precursor do que mercado portatíl.

O "Tijolo" que conquistou o mundo

Em 1989, a Nintendo uniu a portabilidade do Game & Watch com a troca de cartuchos do NES e lançou o Game Boy. Tecnicamente, ele era inferior a tudo no mercado. Sua tela tinha quatro tons de cinza esverdeado e não possuía luz própria (backlight). Contudo, ele tinha duas armas secretas: o jogo Tetris, que atraiu adultos, e uma eficiência energética brutal.

Enquanto o Game Boy rodava por 15 a 30 horas com 4 pilhas AA, seus concorrentes coloridos — Atari Lynx e Sega Game Gear — eram devoradores de energia. O Game Gear, apesar de ser tecnicamente impressionante (um Master System de bolso com sintonizador de TV), drenava 6 pilhas em menos de 4 horas, tornando-se um "portátil de tomada".

"A filosofia de Yokoi era o 'Pensamento Lateral com Tecnologia Madura'. Usar componentes baratos e testados de forma inovadora para manter o preço baixo e a diversão alta."

Outro fator decisivo foi o Cabo Link. O Game Boy transformou o ato solitário de jogar em uma experiência social. A sobrevida do console foi estendida milagrosamente em 1996 com o lançamento de Pokémon Red & Blue, transformando o console obsoleto em um fenômeno cultural novamente, vendendo, ao todo, quase 119 milhões de unidades.

Conhecido e querido por muitos.
Com uma tela maior e visual moderno em relação aos concorrentes..

A era de ouro: GBA e Nintendo DS

Na virada do milênio, a Nintendo lançou o Game Boy Advance (2001). Era, essencialmente, um Super Nintendo de bolso. O GBA trouxe clássicos de 16-bits para a palma da mão e abriu portas para RPGs complexos e jogos de plataforma fluídos. Mas a verdadeira revolução de interface viria três anos depois.

Muitos esquecem, mas antes do iPhone popularizar o toque na tela, a Nintendo fez isso em 2004 com o Nintendo DS. Com um formato "abre e fecha" (clamshell) e duas telas, sendo a inferior sensível ao toque, ele abriu o mercado para o público casual ("blue ocean strategy").

Jogos como Nintendogs e Brain Age venderam consoles para pessoas que nunca haviam tocado em um videogame. O DS se tornou o portátil mais vendido da história (154 milhões de unidades), provando que gráficos 3D não eram a única via de evolução.

Conhecido e querido por muitos.
Conhecido e querido por muitos devido variação que permitia a visualização de cores em tela.

A força bruta da Sony: O legado do PSP

Enquanto a Nintendo dominava a inovação casual, a Sony mirava no poder bruto. Lançado no final de 2004, o PlayStation Portable (PSP) era um monstro multimídia. Ele trazia a experiência do PS2 para o bolso. Títulos como God of War: Chains of Olympus e GTA: Liberty City Stories eram visualmente inacreditáveis para a época.

O PSP também tentou revolucionar o mercado de filmes com o formato UMD (Universal Media Disc), pequenos discos ópticos encapados. Embora a ideia de assistir filmes no ônibus fosse futurista, a mídia física proprietária não resistiu à chegada do MP4 e dos cartões de memória maiores.

Além dos jogos oficiais, o PSP foi marcado por uma vibrante cena de "Homebrew" (softwares caseiros). Devido a falhas de segurança no firmware, hackers permitiram que o console rodasse emuladores de Super Nintendo, leitores de PDF e players de vídeo muito antes dos smartphones fazerem isso com competência.

Conhecido e querido por muitos.
Foi um sonho de consumo para muitos, inclusive para mim, onde se podia ter quase a mesma experiência de um console de mesa, em qualquer lugar.

O declínio e a ameaça mobile

Em 2011, o sucessor PS Vita chegou com tela OLED e dois analógicos reais. Era uma máquina perfeita, considerada por muitos o melhor hardware já feito pela Sony, mas nasceu em um mundo hostil. O iPhone e o Android já ofereciam jogos "bons o suficiente" por US$ 0,99 ou de graça (Free-to-Play).

  • Erro Fatal da Sony: Cartões de memória proprietários caríssimos. Um cartão de 32GB do Vita custava 3x mais que um MicroSD comum.
  • Mudança de Foco: Grandes estúdios abandonaram o desenvolvimento de portáteis dedicados para focar em consoles de mesa ou jogos mobile com microtransações ("Gacha").
  • Concorrência Desleal: Por que pagar US$ 40 num jogo se Angry Birds custava US$ 1?

O mercado de portáteis dedicados parecia morto, até que a Nintendo unificou seus setores de desenvolvimento com o Switch em 2017. O conceito híbrido provou que ainda havia demanda massiva por jogos profundos e complexos "on the go", vendendo mais de 130 milhões de unidades e resgatando a indústria.

O eenascimento: A era dos Handheld PCs

Hoje vivemos uma nova era dourada, impulsionada pela miniaturização dos processadores x86. A Valve sacudiu o mercado com o Steam Deck, utilizando uma APU da AMD customizada, o sistema Linux e uma camada de compatibilidade (Proton) para rodar jogos de PC Windows. Isso eliminou a necessidade de "ports" específicos: sua biblioteca da Steam simplesmente funciona.

ASUS ROG Ally e a nova geração de portáteis
ROG Ally: Poder de processamento superior ao de um PS4, rodando Windows 11 nativo.

Seguindo a Valve, empresas como ASUS (ROG Ally), Lenovo (Legion Go) e MSI entraram na briga. Diferente do passado fechado ("Walled Garden") da Nintendo e Sony, esses dispositivos são computadores abertos. Você pode instalar emuladores, editar vídeos, usar mods, acessar o Game Pass ou conectar um teclado e trabalhar.

Conclusão

A evolução dos portáteis é a história da miniaturização e da liberdade. Começamos com pontos vermelhos piscantes, passamos pela guerra das pilhas, sobrevivemos à tempestade dos smartphones e chegamos a dispositivos que rodam Cyberpunk 2077 na palma da mão. A barreira técnica entre o "console de mesa" e o "portátil" finalmente deixou de existir, restando apenas a escolha de onde você quer jogar.