Para entender o presente, devemos olhar para a virada do milênio. A Sega sempre foi reconhecida por sua originalidade e criatividade no desenvolvimento de jogos arcade. Em uma época dominada por jogos de luta e corridas convencionais, a empresa decidiu inovar com um conceito inusitado: a condução agressiva de caminhões TIR com enormes atrelados no meio do trânsito.
Desenvolvido originalmente para o sistema NAOMI e depois convertido para Dreamcast, PS2 e GameCube, 18 Wheeler: American Pro Trucker era sobre velocidade e reflexos. O objetivo central era levar a carga do ponto A ao ponto B em um curto intervalo de tempo, enfrentando constantemente um caminhoneiro rival que tentava terminar primeiro.
Para vencer, o jogador precisava dominar táticas que misturavam física exagerada com estratégia:
- Slipstream (Vácuo): Usar os túneis de vento criados por outros caminhões para ganhar velocidade extra.
- Destruição Lucrativa: Atropelar carros marcados com painéis eletrônicos concedia 3 segundos de bônus ao cronômetro.
- Dificuldade Orgânica: A escolha de carregar uma carga mais pesada funcionava como um "Hard Mode", reduzindo a velocidade de ponta e a flexibilidade.
Se 18 Wheeler representa o polimento técnico, o jogo lançado em novembro de 2003 pela Stellar Stone, Big Rigs: Over the Road Racing, representa o abismo. Com uma nota histórica de 8/100 no Metacritic, ele é frequentemente citado como o "pior jogo de computador da história".
O jogo foi lançado em estado incompleto, possivelmente uma versão "pré-alpha". A lista de falhas visuais e de programação é tão extensa que se tornou lendária:
- Ausência de colisão: O caminhão atravessa edifícios, árvores, pontes e até o oponente sem sofrer nenhum dano ou redução de velocidade.
- Física quebrada: O jogador pode subir montanhas íngremes e escalar paredes verticais sem perder velocidade.
- Ré infinita: Ao engatar a ré, o caminhão acelera indefinidamente, superando qualquer limite lógico de velocidade. Ao soltar a tecla, ele para instantaneamente.
A capa prometia fugas da polícia e entrega de cargas, elementos que nem sequer existiam no código do jogo.
Após a era experimental, o gênero encontrou sua maturidade com a SCS Software. Lançado em 2012, Euro Truck Simulator 2 (ETS2) vendeu mais de 9 milhões de cópias, transcendendo o nicho para se tornar um fenômeno global.
Se o ETS2 domina as rodovias pavimentadas, uma nova geração de simuladores está conquistando o que existe fora delas. O mercado percebeu que o desafio não precisa ser apenas o tráfego, mas o próprio terreno e a sobrevivência do motorista.
A franquia da Saber Interactive (iniciada com Spintires e evoluindo para MudRunner e SnowRunner) mudou o foco da entrega rápida para a transposição de obstáculos. Aqui, o inimigo é a física. O jogador enfrenta lama profunda, rios caudalosos e neve espessa. Diferente da condução suave do ETS2, em SnowRunner cada metro avançado é uma batalha tática usando tração integral, bloqueio de diferencial e guinchos. É a gamificação do resgate e do transporte off-road extremo.
Outros títulos estão expandindo as mecânicas de "vida na estrada":
- Alaskan Road Truckers: Anteriormente conhecido como Alaskan Truck Simulator, este jogo propõe que você jogue não apenas como o caminhão, mas como o caminhoneiro. É necessário sair do veículo, gerenciar fome, energia e temperatura corporal, além de fazer reparos manuais no motor em meio a nevascas.
- Australia Simulator / Truck World: O fascínio pelo "Outback" australiano está gerando títulos focados nos gigantescos Road Trains (caminhões com múltiplos reboques). A complexidade física de manobrar composições de 50 metros em estradas de terra retas e infinitas traz um novo tipo de desafio logístico que começa a ganhar espaço no mercado.
A comunidade brasileira foi vital para o sucesso contínuo do ETS2. Roberto Restanho, criador do Mod EAA, explica que a abertura da desenvolvedora para modificações foi crucial: "O jogo por si talvez não fizesse tanto sucesso se não existissem pessoas criando conteúdos adicionais".
O Mod EAA, por exemplo, insere cerca de 850 cidades da América do Sul (a maioria no Brasil) em escala reduzida, permitindo que jogadores transportem cargas por rodovias familiares. Além disso, em julho de 2021, a SCS lançou o modo multiplayer oficial ("Comboio") para até 8 jogadores, atendendo a um pedido antigo para conectar amigos na estrada.
Porém, o futuro aponta para uma diversificação ainda maior. O gênero não se trata mais apenas de ir do ponto A ao ponto B. Com a chegada de titãs como SnowRunner desafiando a física de terrenos, e propostas imersivas como Alaskan Road Truckers e os futuros simuladores ambientados na Austrália, o jogador agora precisa dominar não só a máquina, mas a natureza. Seja atolado na lama da Sibéria, desviando de cangurus no Outback ou entregando soja no interior do Paraná via mods, nunca houve um momento melhor para assumir o volante virtual.